quarta-feira, agosto 25, 2004

Especiarias

Hoje conheci pessoas novas. É bom conhecer pessoas novas, para podermos variar as conversas.
Conheci estas pessoas num trabalho novo, que comecei há uns dias. Não é nada de especial, é apenas um trabalho temporário. Mas permitiu-me conhecer as tais pessoas novas.
Também tenho ido almoçar a sítios diferentes, os meus horários mudaram e as minhas rotinas alteraram-se todas. Uma das consequências destas variações (e notei isso hoje com maior vigor) foi a perturbação da minha flora intestinal. Sim, o corpo humano é lixado; resiste à mudança e luta com todas as forças para manter o equilíbrio. Nunca vos aconteceu irem passar uns dias a um parque de campismo e, após algumas noites, começarem a sonhar com laxantes? Pois é.
Tudo isto para vos falar do meu trabalho novo. Nem sei se lhe posso chamar bem um trabalho, é mais uma ocupação, uma tarefa mecanizada para ganhar uns trocos e sobreviver nesta sociedade que se move à custa de alavancas douradas. Mas, apesar de tudo, estou a gostar. E sabem porquê? Porque exige.
Exige disciplina, disponibilidade, contacto humano, espírito de equipa. Exige vontade de aprender, dinamismo e expressão verbal. E também porque surgem pelo meio verdadeiras personagens de B.D., quais caricaturas sociais que pensávamos só existirem sob a forma de ilustrações nas páginas dos jornais ou como estereótipos da ideologia popular. Mas não, senhores, os cromos e os bimbos e os simplesmente ignorantes existem realmente, desde a velhinha de 70 anos que ameaça o seu interlocutor com tiros de pistola porque lhe desligaram a TVCabo, até ao jovem adulto que tenta efectuar um pagamento de serviços enviando o cheque por fax (!).
É verdade, a brejeirice existe e anda por aí - José Castel-Branco, Lili Caneças, Zezé Camarinha, Alberto João Jardim... e ficamos muitas vezes a pensar: "Isto não é real! Este gajo é a sério, ou está a gozar comigo?". Geralmente, não consigo chegar a uma resposta completamente satisfatória.
Devemos então criar um pelotão de linchamento e varrer a bimbalhada das ruas? Cortar o bigode às velhotas das aldeias? Rapar as suiças dos pastores alentejanos? Inverter os peelings das tias da linha e mandar para a tropa os tios apaneleirados (ok, ok, neste caso seria mais prenda que castigo)? A resposta é: NÃO. Não?
Não, porque a brejeirice é Pura. Reflecte uma espontaneidade e simplicidade que se expressa através dos comportamentos mais absurdos, das palavras mais ordinárias e/ou dos pensamentos mais desarticulados que se possam imaginar. Ou seja, não é cromo quem quer, mas quem pode. Aliás, todos nós podemos, de vez em quando - eu próprio posso, às vezes até várias vezes ao dia. E são estes pequenos fragmentos de pureza que condimentam o nosso quotidiano, tornando-o mais saboroso e apetecível. Acho que é isso que me agrada no meu novo trabalho - pode não ser muito exigente em termos físicos, nem um grande estimulante para as minhas células cinzentas, mas deixa-me provar estes sabores e conhecer pessoas que, tal como eu, podem. E com isso, meus amigos, torna a minha vida mais alegre.

domingo, agosto 22, 2004

Canções e musas

Eu gosto de escrever canções de amor.
Gosto de sentir as palavras, saboreá-las e brincar com elas, enquanto tento colocar os meus sentimentos no papel. Geralmente é fácil, pois como vi há bocado num filme, "... para se ser poeta basta estar apaixonado."
Posto isto, passamos para a parte complicada da questão: encontrar uma Musa que nos inspire. E isto, meus amigos, se de facto não é tarefa fácil, uma vez alcançado abre as portas do sucesso. Porque uma boa Musa traz SEMPRE boas canções de amor, e toda a gente gosta de ouvir boas canções de amor. Talvez porque este sentimento carrega mais energia que uma pilha da duracell e, portanto, deixa-nos bem-dispostos e enérgicos.
Agora, há Musas e musas. Basta ouvirem uma canção do Caetano Veloso e depois uma do Paulo Gonzo, por exemplo, para perceberem do que estou a falar. O Paulo Gonzo anda a ser inspirado por drag-queens.
Eu também tenho uma Musa. Descobri-a faz agora um ano. E mal ou bem, tenho conseguido guardar a sua inspiração só para mim. O que é muito bom, porque esta Musa está ao nível da de um Caetano Veloso, João Gilberto ou Jeff Buckley. Aliás, a minha Musa está bem acima de qualquer uma destas. E sabem porquê? Porque é Real. Porque (sor)ri [e que (sor)riso maravilhoso!] mas também chora. Porque partilha comigo as suas coisas, mas também me escuta. Porque tem uma pele macia que tenho o privilégio de tocar, com um carinho que talvez nem ela mesma se aperceba. Porque me faz perceber, várias vezes, que não existe apenas uma maneira de ver as coisas, e assim me ajuda a ser uma pessoa melhor. Porque me deixa amá-la, e me faz sentir amado.
Essa é uma das razões porque gosto de escrever canções de amor: ajuda a outra pessoa a sentir que gostamos dela, a sentir-se amada. Claro que há muitas outras coisas que podemos fazer e que têm o mesmo efeito, como dar flores, lembrarmo-nos de datas especiais, sermos atenciosos e compreensivos, ou mesmo enviar sms ou falar ao telefone. E todas estas coisas são importantes. Mas as canções de amor estão num nível diferente: não murcham, falam daquilo que é mais importante, são palavras mas também um acto. E, como são feitas por nós, reflectem esforço e atenção para com o destinatário.
Sim, eu gosto de escrever canções de amor para a minha Musa. Porque ela é Real. E o meu Amor também.

terça-feira, agosto 17, 2004

Implosão emocional

Implosão: do Fr. implosion/Ing. implosion, rebentamento para dentro; s. f., conjunto de explosões combinadas de forma a que os seus efeitos tendam para uma área limitada central.

Já há algum tempo que me sinto implodir. Rebento para dentro. Sinto permanentemente explosões múltiplas dentro do pequeno invólucro que é o meu corpo. E isso é mau.
Isto (re)começou na semana passada, quando falei com uma Pessoa Especial. Essa pessoa era, e continua a ser, um perfeito desconhecido para mim, e provavelmente nunca passará disso mesmo - apenas uma cara, mais um grão de areia nesta praia chamada vida. E, no entanto, criou em mim a implosão.
Essa pessoa veio a revelar-se, afinal, o Elemento Precipitador de um estado que, receio bem, seja crónico. Uma sensação de vazio que se espalha gradualmente e me afecta emocional, cognitiva, afectiva e comportamentalmente. E o que é que isso vos interessa, perguntam vocês? Bom, para aqueles que me conhecem e lidam comigo, interessa muito porque nestes períodos torno-me desinteressante, insípido e letárgico. E isso aumenta o meu vazio emocional, porque me faz pensar que as pessoas vão perder a paciência para me aturar. O que é normal. E então o meu comportamento torna-se ainda mais perturbado, os meus afectos ficam desregulados e as minhas cognições (i.e, pensamentos) tornam-se rígidas e desadequadas.
E todo o meu ser entra num Caos intenso, explodindo para aqui e para ali, cada vez mais descontrolado e incontrolável, até que a implosão se transforma numa explosão maciça que trespassa as barreiras do meu corpo e se espalha no exterior, em todas as direcções. E deste Bing Bang que, sei-o agora, é periódico, emerge lentamente a Ordem e com ela a reconstrução de tudo o que foi destruído, juntamente com novas construções antes impossíveis.
Há quem lhe chame Crescimento ou Aprendizagem. Pelo sim pelo não, é melhor abrigarem-se...

segunda-feira, agosto 16, 2004

O Caos na nossa vida

Tudo tende para o Caos, mesmo as coisas mais simples e "certas" da vida - o emprego, as relações humanas, os bens materiais, o tráfego intestinal, o cheiro corporal, a própria existência... e, no entanto, é no Caos que encontramos harmonia, pois do Caos nasce nova Ordem e com ela surge a Mudança e a Evolução.
Se não fosse o Caos, teríamos o mesmo emprego toda a vida (ou estaríamos sempre desempregados), as relações humanas seriam previsíveis e, logo, infinitamente aborrecidas, as coisas que compramos não se estragavam e não contribuíamos para o crescimento da sociedade capitalista, não sabíamos quando tinhamos de evacuar (i.e., cagar) ou tomar banho e, mais importante de tudo, talvez não morressemos. Enfim, uma grande chatice, pois se já com o Caos à espreita a vida consegue muitas vezes ter o interesse de um filme de 5 horas do Joaquim Leitão, imaginem a vida eterna num mundo assente na ordem e harmonia perpétuas...
Nada de acidentes, desgostos de amor ou heavy metal - apenas ordem, previsibilidade e música pré-formatada do tipo Robbie Williams.
Que possibilidade terrível.